Sem grandes introduções, vamos direto aos fatos em uma linha do tempo, para mostrar que é mais rápido publicar mentiras e suposições, e que elas dão mais audiência. Por isso, vivemos tempos tão difíceis em relação à credibilidade e autenticidade de informações.

Todos os índices em redes sociais mencionados foram levantados na tarde de 25 de janeiro.

  • 18 de janeiro à noite

Doze horas após ser vacinada contra a covid-19, uma criança de 10 anos, em Lençóis Paulistas, interior de São Paulo, apresenta alterações nos batimentos cardíacos e desmaia, segundo relatos de seu pai.

Ela foi levada a um hospital, reanimada e transferida para o Hospital da Unimed, em Botucatu, onde permaneceu sob observação.

  • 19 de janeiro à tarde

A prefeitura de Lençóis Paulistas, no interior de São Paulo, anuncia a suspensão da vacinação infantil contra a covid-19 por sete dias devido ao fato. Confira a nota oficial do município.

O post da prefeitura com esse anúncio teve quase 2.943 curtidas no Instagram e, no Twitter, foi compartilhado 123 vezes.

  • 19 e 20 de janeiro

Começam a circular nas redes e em aplicativos de conversa, como WhatsApp e Telegram, mensagens de que a menina teria sofrido a parada cardíaca em reação à vacina, e que uma equipe da Universidade Estadual Paulista (Unesp) teria confirmado o fato.

Imagem do UOL Confere

  • 20 de janeiro de manhã

Como que numa previsão, o Prof. Dr. Jose Gallucci-Neto tuitou: “Não façam conclusões precipitadas. A pergunta é: o evento adverso grave tem nexo causal com a vacina (ou há outra explicação, por ex. uma cardiopatia de base)? Para responder isso temos uma equipe gabaritada investigando o evento. Aguardemos a conclusão”. Ele teve 26 compartilhamentos.

E quem é ele?

O Prof. Gallucci é Diretor Médico da Unidade de Vídeo-EEG do Instituto de Psiquiatria do HCFMUSP, Diretor Médico do Serviço de ECT do Instituto de Psiquiatria do HCFMUSP, Médico Assistente e Chefe da Unidade Metabólica do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.

  • 20 de janeiro à tarde

O Centro de Vigilância Epidemiológica da Secretaria da Saúde de São Paulo descartou que a vacina contra covid-19 tenha causado parada cardíaca na menina. A nota oficial concluiu que “a paciente tem uma pré-excitação no eletrocardiograma, característica da síndrome de Wolff-Parkinson-White (WPW). Esta é uma condição congênita que leva o coração a ter crises de taquicardia. Algumas destas crises podem ter frequência muito alta, levando até a síncope ou mesmo morte súbita. A WPW é mais comum causa de morte súbita por arritmia ventricular”.

A nota reforçou ainda: “Não existe relação causal entre a vacinação e o quadro clínico apresentado, portanto, o evento adverso pós-vacinação está descartado”.

Depois de a nota ser divulgada, a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, foi a Botucatu visitar a criança, e foi constatado que o Ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, também estava na comitiva. A ministra contou a visita em post no Twitter, no qual teve 10.991 curtidas, e recebeu muitas respostas avisando que o caso comprovadamente não estava ligado à vacina, mas não se sabe se ela as leu.

A prefeitura de Lençóis Paulistas retomou a vacinação infantil mediante agendamento telefônico prévio. Seu post informando que não havia relação causal entre a vacinação e o quadro clínico da criança teve 12 compartilhamentos no Twitter e 486 curtidas no Instagram.

A repórter da Veja Saúde, Chloé Pinheiro, relembrou no Twitter uma reportagem de maio de 2021 comentando: “Com esse caso da parada cardíaca da criança, que nada tinha a ver com a vacina, é bom lembrar que algo acontecer DEPOIS da picada é diferente de acontecer POR CAUSA da picada”. A matéria citada por ela diz: “Covid-19: como interpretar casos de morte depois da aplicação da vacina. Uma morte APÓS a imunização contra o coronavírus não significa que ela foi causada PELA imunização. Veja o que a ciência diz sobre o assunto”. Chloé teve 15 compartilhamentos.

  • 21 de janeiro à tarde

Depois de solicitação do UOL Confere, a Unesp respondeu sobre a citada informação compartilhada online.

Ela afirmou que a criança não tinha sido atendida em seu hospital: “A criança vacinada na cidade de Lençóis Paulista, citada em mensagens que circulam nas redes sociais, não foi atendida no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu (HCFMB)”, que é um hospital da Unesp”.

O UOL Confere identificou que essa a falsa informação do atendimento teve mais de 17 mil interações (curtidas e comentários) no Instagram.

O Ministério da Saúde confirma a análise feita pelo governo de São Paulo, descartando a relação entre a vacina e o caso de parada cardíaca.

Epílogo

O policial militar Claudimar Petenuci, pai da menina de 10 anos, informou a imprensa em 22 de janeiro que ela seria submetida a um exame de ressonância magnética, mas ele acabou adiado o dia 24 de janeiro por recomendação do médico anestesista. Ele aguardava então o resultado do exame para dar o correto tratamento à filha.

Sob cuidados médicos corretos e competentes, a menina passa bem.

Quem passa mal, no momento, é o Brasil.

Quer acompanhar vozes confiáveis em relação à saúde e à ciência? Confira o relatório Principais vozes da ciência no Twitter, publicado pelo Science Pulse e pelo Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados.

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